Coisas que eu escreveria para você num orelhão

Hoje faz três meses que eu te desconheço. Não que eu ande contando os dias, mas é que eu sempre fui bom com datas, principalmente com as finais. Desconhecer alguém é pior do que deixar de ter conhecido. Quando se deixa de conhecer, fica o tesão da dúvida. Quando se desconhece, fica a dor do estranhamento. Quando desceu do carro, esqueceu de me contar que era a última vez que estava fechando a porta.
Lógico que o tempo é o remédio da alma. Com os dias passando, com as semanas voando, com as horas lotadas e os minutos corridos, eu deixei de perceber qualquer sinal de falta que pairava no peito. Confesso também que alguns amores temporários fizeram com que toda a necessidade sumisse. Cada um encontra um jeito de se preencher, e eu permiti que a falta de tempo me consumisse por inteiro. Permiti que todo esse estresse, toda essa pressão fosse maior do que qualquer saudade. Com certeza alguns teriam surtado. Eu apenas suei por uns dias, depois já tinha aceitado a tragédia.
Eu já vinha me esquecendo de tudo. Não lembrava mais das viagens que fazíamos aos fins de semana. Não lembrava das piadas nem dos apelidos. Não lembrava das marcas nem das mágoas. Não lembrava de nenhum dos seus perfumes. Eu não lembrava mais nem de como era bom dividir aquele edredom antigo que você guardou não sei porquê. A única coisa que eu ainda não tinha esquecido era do orelhão que eu estava no dia que eu conheci. Aquele velho e surrado perto do seu trabalho.
Num dia desses aí, eu passei lá. Estava quebrado como sempre. Do jeito que ele estava naquela segunda que você me disse seu nome. Quando acabou tocando a sua mão na minha, e no mesmo tempo, os segundos congelaram na mesma intensidade que o coração esquentou. Eu sei que meu banco do carro não vai ter mais você. Eu sei que o seu perfume nunca mais ficará na minha camisa. Eu sei também que nossos horários jamais voltaram a bater. Mas, só por hoje, eu resolvi tomar a minha quantia de você. E escrevi naquele orelhão uma coisa que eu queria que soubesse. Tomara que passe um dia e leia:
“Não sei se vai lembrar desse orelhão, mas quando ler este recado, saberá que fui eu. Quero que saiba que estou torcendo muito para que tudo se acerte. Não te prendo mais nos pensamentos nem no coração. Não te solicito mais nos sonhos e evito qualquer tipo de plano. Mas, se algum dia, estiver de bobeira, me chama. Eu prometo que invento uma história só para o assunto não acabar, prometo que faço alguma piada, só para sua risada não ter fim. Eu até te ligaria, mas infelizmente qualquer ligação minha seria engano. Só você não me viu, mas quando ler esse recado, sabe que sempre poderá me encontrar. Seja para conversar, ou para eu poder te dizer como você é linda, e que podemos recomeçar sempre que quiser. ”

  1. Olá, Gustavo, eu não sei se cheguei ao lugar certo, mas uma vez li um conto em um blog que a frase final era “quero ver os meus demônios dançando com os seus (neste bar)” e só me lembro do teu nome. Não sei se é o autor, mas se for, por favor, me envie o conto, porque não consigo tirar a frase da cabeça, e gostaria de lembrar do texto.

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