DJ-SABAPHOS #1: Ser DJ no jardim de infância

Eu tinha uns cinco anos de idade quando descobri o poder do equalizador. Claro, não estou falando dos profissionais, com camadas e camadas de Hz para acrescentar e retirar; estou falando daqueles pequenininhos que tinha nos estéreos antigos. Acho que o meu era da Panasonic (ops, propaganda).
Marcas à parte, eu adorava ouvir alguns CD’s dos meus pais e brincar com aquele mini-equalizador do som. Eles tinham uma coleção que eu amava só dos ‘greatest hits’ da música clássica. De Beethoven à Debussy. E você acredita que eu pirava em ficar “tira grave, agora põe agudo… não, não, essa vai ficar em flat mesmo”. Mal sabia eu que, com a qualidade do CD, talvez nem era pra tanto.
Ah! Cinco anos, não é louco?
Pois bem. Eu nunca pensei, nem por um segundo – até bem recentemente – que aquilo poderia ter sido o primeiro sinal de que eu iria mexer com frequências sonoras no meu futuro. Segundo a minha analista, talvez esta seja a hora para parar e pensar se aquela minha decisão acadêmica fui eu quem fez ou se foi minha vontade de agradar à família que decidiu por mim. Mas isso é assunto para outro texto…
Pois bem, estamos aqui, em 2015, e eu sou DJ, ou melhor, disc jockey.
Comecei ano passado, depois de uma temporada em São Paulo onde estudei a metade do curso de Produção de Música Eletrônica da Anhembi Morumbi.
Aliás, um salve pra todo o pessoal de lá. Que curso fino!
Lá no curso, para encurtar a história, eu descobri que música eletrônica era muito mais que remix de rádio; photoshop nas pick-ups e glamour noturno. Eu descobri que o estilo foi o tataraneto de um cruzamento inusitado e maravilhoso entre a música erudita e a música popular. Descobri que o minimalismo exerce uma influência gigantesca e que Philip Glass foi a primeira referência do repetitivo que mais bombou – e se hoje tuntz tuntz hipnotiza, é graças à escola clássica que utiliza essa técnica como carro-chefe. Descobri também que a música negra gerou e é responsável por todos os estilos pop e mainstream de sucesso; e um dos filhotes da música eletrônica também veio do gueto: a house music e, eventualmente depois (ou em paralelo, não me matem, xiitas!), o Techno. Além das várias aulas de produção, apreciação musical, tecnologia MIDI, áudio e sonorização, etc, foi muita coisa boa absorvida em pouco tempo e eu sou louca para voltar e poder terminar meu curso com os mestres de lá.
Porém, é durante o exercício da música eletrônica no dia a dia que nascem os conhecimentos mais tristes.
É como se o mundo dos DJs fosse uma turma de classe infantil.
Não, não é high school, é kindergarden mesmo.
Crianças cheias de talento, de vida, criativas, que mexem com seus brinquedos com uma facilidade e descobrem coisas magníficas com o exercício que aprendem todos os dias na prática, conduzidos por mestres/professores que já manjam muito bem do que fazem e que a gente admira com os olhinhos brilhando de emoção.
Por outro lado, existem as birrinhas, os ciúmes (não sei por que fulano tem tanta atenção e eu tão pouco! Vou chorar – geralmente no facebook), as lamúrias, as panelinhas e o pior: a falta de noção, tal como uma criancinha de três aninhos, de que é importante dividir. De mostrar para o outro o que aprendeu. De compartilhar seus brinquedos quando necessário e de chamar pra brincar o garotinho que entrou agora na sala – ué, talvez ele seja um carinha tão legal, tão talentoso e criativo também, não custa nada.
Para completar, também existem os ‘coordenadores’, ‘professores’ e ‘inspetores’ que, dentro da nossa analogia, podem se converter facilmente em produtores de eventos, donos de casas de show e boates, assim como empresários. Esses ‘maiorais’ precisam das crianças na escola para sobreviverem, mas de alguma formam muito esquisita e inexplicável, acham que os pequenos é que dependem do sistema para sobreviver e que, sem a orientação dos mandachuvas do ramo, eles não serão ninguém na vida.
Sei que vão existir comentários do tipo: mas isso acontece em todo ambiente de trabalho ou boa parte dele.
De fato, pode até acontecer.
Mas que isso aconteça entre quatro paredes, com computadores, prazos, clientes, chefes, funcionários e rotinas, tudo bem. Agora, em meio a clubes, boates, noites livres, pessoas diversas, boas conversas, cervejas, cositas más, e usufruindo de uma das melhores coisas que o universo já pôde nos fornecer que é a música… Eu sinto que tenho muito mais a reclamar.
Welcome to the world of the beats!

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