DJ-SABAPHOS #2: A balada do DJ sozinho

Caladas da noite ou manhãs silenciosas costumam virar momentos íntimos e de inspiração. A ausência de som acarreta o nascimento do próprio barulho, que nasce em formato de melodias, beats, harmônicos, graves e agudos da música. Ainda acho mágico como o silêncio vira o melhor momento para se pensar no barulho. É pura arte encontrar alguma coisa no meio do nada.
Isso vem nas mãos dos artesãos, que de uma argila pura fazem nascer vasos exuberantes. Da tela branca, o balé das tintas e a pintura que contam uma história. Numa folha em branco, surgem as palavras que vão tocar profundamente as almas de quem virar a página. A vida, pulsante, que surge no vácuo das ideias… Isso é muito maravilhoso.
Pois bem, o mesmo ocorre com a música.
Do completo silêncio modorrento, costumam vir os primeiros sinais de três a seis minutos que podem eternizar uma geração. Instigar sonhos, fazer dinheiro, mudar a vida de uma ou mais pessoas. De quem fez e de quem consumiu. Tudo muda por um segundo de inspiração musical silenciosa.
Este silêncio vem de nós mesmos, e entenda, pode até ser que estejamos rodeados de pessoas e no meio de uma festa com PAs gritando nos nossos ouvidos… Isso não importa. O silêncio é de dentro.
“Nós somos feitos de silêncio e som”, já diria Lulu Santos.
Com isso, podemos até estar acostumados.
Porém, quando o dever foi cumprido, quando baixam-se os fones, os monitores, os canais… A partir daí, não é mais só conosco. Nasce aquela vontade de compartilhar, de mostrar para um ou para vários o que foi feito, como estamos evoluindo, o que pretendemos fazer em seguida, qual a próxima gig que a gente vai tocar, onde aquele trabalho poderá ser usufruído, como ele será demonstrado; qual a reação do próximo?
Os baldes de água fria costumam vir por aí. Se eles já não nasceram de você mesmo, provavelmente vão vir no formato das críticas. Claro que sempre tem aquele pessoal, que mesmo que você faça uma mixagem simples ou uma track puramente sampleada, vai te dar tapinhas nas costas e dizer que você é o máximo. Óbvio.
Mas, do mesmo jeito que esse pessoal não nos ajuda em absolutamente nada, nossos próprios colegas de trabalho não costumam nos ajudar.
“Ouve minha track, diz o que você acha”.
“Saca esse meu set, depois me dá um feedback pra eu saber se você curtiu”.
Isso enche a timeline de todos nós, porque não – ninguém tem o hábito de simplesmente abrir diariamente a página dos colegas para checar se tem alguma novidade. Ou até mesmo chegar até o indivíduo e falar “e aí? Ta produzindo algo novo? Quando que sai?”.
Isso no mundo dos produtores.
No dos DJs, nem se fala…
“Vamo pra minha gig, dia tal, horário tal, local tal, vai ser massa! Conto com você!”.
“Ei, tá ligado que eu vou tocar em tal lugar, né, mano? Pô, vamo nessa”.
Olhar a agenda do colega é muito trabalhoso. Ou até mesmo prestar atenção na própria linha do tempo e curtir a parada que o amigo publicou, dar aquela compartilhada legal, incentivar, divulgar o trampo.
Não, a balada é a do DJ sozinho.
Para doer um pouco mais, digo o porquê que escolher ser DJ/produtor e artista em geral é difícil como aprender japonês em braile: as primeiras descrenças e os primeiros sinais de indiferença parecem vir de quem você menos espera. Quanto mais próximo, mais indiferente e/ou duvidoso.
“Isso não é pra você…”.
“Isso é só temporário né? Só hobby?”.
“Nessa não vai dar pra ir, eu vou depois…”.
Estamos bem sozinhos nas nossas escolhas e não vem tapinha nas costas quando decidimos que vamos seguir em frente. Não vejo apoio dos próximos nem dos caras da mesma área que parece que têm um puta medo de serem “roubados da cena” pelos moleques novos que eventualmente, sim, podem ter mais talento que você. E daí? Supera, mermão, estuda mais e vamo nessa. Aliás, fortalecer a cena é isso: aprender constantemente a apoiar os novos talentos e a engrandecer os antigos.
Mas a balada é a do DJ sozinho, lembra?
Então, talvez seja pedir demais. Nosso silêncio de ideias se estende no silêncio das respostas de quem mais importa para nós.
O vácuo, que é berço das melhores melodias, dá espaço ao desinteresse. A ausência de som é ampliada pela falta de apoio, de companheirismo, deixando todos surdos.
Portanto, que este texto não seja só desabafo, que ele seja um pingo de esperança pra quem se identifica com ele e que deixe a mensagem: você não está sozinho. Se depender de mim, a gente fecha junto. Eu agradeço a quem fechou comigo e agora quero passar adiante – apesar de não ter chegado em lugar nenhum ainda.
Não, não cheguei a lugar nenhum mesmo, mas ainda quero chegar. Pela minha própria determinação, aprendi a ser forte e ainda aprendo. Quer que alguém te divulgue? Divulga você mesmo! Quer que alguém ouça? Ouça você mesmo e seja você mesmo o próprio fã e o próprio crítico! Quer ter amigos-roadies? Carrega você mesmo seu equipamento, mexe com os fios, liga e desliga. Você só tem a aprender com isso. Quer que alguém compareça? Vá nas suas gigs e não deixe de mostrar seu trabalho! E o melhor de tudo: você não se pede nada em troca por tudo isso que listei acima. Pelo contrário, você faz com prazer, porque não é ninguém mais e ninguém menos do que VOCÊ que vai estar tocando lá, naquela noite, naquele local, naquele dia… E então, talvez, no meio dessa andança toda, você encontre pessoas que queiram dividir com você essa caminhada. Quem sabe elas ainda vão cantar músicas de estrada quando você tiver desanimando.
Não, eu não cheguei a lugar nenhum pra estar te dando essas dicas, eu só andei alguns poucos quilômetros.
Mas o caminho se faz caminhando. E eu tô indo com fones de ouvido para não perder o pique e o meu silêncio. Tenta o mesmo!
Nota do editor: se você quiser conferir o som da Maluh, aqui vai.

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