DJ-SABAPHOS #3: Cansei

Vamos abrir logo o jogo: eu tô quase parando de tocar.
Em primeiro lugar, quero dar meus agradecimentos a quem me apoiou de verdade (meus pais e uns dois ou três amigos), aos produtores que foram profissionais comigo (dois ou três também) e aos colegas DJs e músicos que mantêm a tradição e são artistas que merecem todo meu respeito (nessa categoria, quase todos).
O resto, na minha humilde e sincera opinião: vai plantar batata – ou o chulo VSF pros que a carapuça servir.
Pra quem não sabe, a história é a seguinte: eu sempre gostei de música. Estudo esse assunto desde pequenininha e tenho completa fascinação pelo mundo pop, rock e hip hop do bagulho. Sou inteligente o suficiente, também, para saber que esses estilos não caíram da chuva – eles têm raízes profundas em outros segmentos (alguns eruditos, outros populares) os quais eu bato a cabeça, beijo o anel e reverencio com toda humildade.
Foi em 2013, após terminar meu curso de jornalismo na Federal de Sergipe, que eu decidi me aprofundar mais e da melhor forma possível: ingressei na faculdade de Produção de Música Eletrônica da Anhembi Morumbi de São Paulo. Lá, obtive conhecimentos extraordinários com mestres da musica eletrônica brasileira que vão desde o mestre em teclado Theophilo, ao produtor, dj e mestre em música eletrônica no Brasil desde as antigas, Bruno E, e ainda os caras que eu fiquei embasbacada com o talento nos vinis e na discotecagem, Magal, Mako e Ramilson.
Ramilson, inclusive, me levou num rolê rápido pelas lojas de vinil da República onde ele tinha trampado no início da sua vida musical. Me apresentou os grandões de lá, disse que eu era sua aluna e eu fiquei orgulhosa e embaraçada por achar que eu não merecia aquele momento (vou sentir isso muitas vezes ainda). Foi um rolê rápido, mas que me valeu muito. Discutimos rapidamente o novo álbum do Daft Punk. Ele: “achei experimental demais, eles perderam a mão aí”. Eu: “ah, eu achei massa”. Profundas opiniões como as minhas são demais, hein?
Tive a oportunidade de gastar os pouquíssimos caraminguados que tinha – porque viver em Sampa sem trampo é uma arte – para ir no Nola Bar assistir KL Jay e o mestre Magal em suas performances. Que o KL Jay me deixou nas alturas já era bem previsível. Mas o profissionalismo de Magal, suas viradas certinhas e seu repertório recheado do que há de mais fino da Disco Music foi (perdão) de fuder.
Theo dava umas aulas de teclado sinistras e não sabia ele, nem ninguém naquela época, que eu estava sofrendo com crise do pânico e ansiedade aguda 24h por dia. Pra quem não sabia bulhufas de teclado, partituras e afins, numa prova na qual o professor senta do seu ladinho com o metrônomo ligado esperando você tocar a música no tempo certo, com as notas certas, lendo partitura, era um prato cheio para crises de pânico antes, durante e depois.
Eu dormia num quarto pequeno que aluguei num apartamento de uma senhora na Barra Funda. Era tranquilo, mas o tamanho do quartinho – que era, sim , aconchegante – me sufocava muitas vezes. O teclado que eu treinava ficava num cantinho do quarto e sabe Deus como eu consegui concentração para treinar para as provas “aterrorizantes” do Theo.
Mas, quer saber de uma? Ele era um ótimo professor. O terrível vinha da nossa inabilidade de aceitar o quão importante aquela parada era para nós e nossas carreiras. O que Theo tava querendo dizer o tempo todo era: “não seja mais um DJ que joga notas sequenciadas no computador, de forma aleatória e sem nexo. Façam música de verdade e provem para todos aqueles que dizem que música eletrônica não tem conteúdo, que nós somos, antes de tudo, músicos”.
Umas sudoreses e um 9 e 10 aqui, superei minhas crises e agradeço imensamente a um dos professores de música mais legais que conheci.
Aí pula: tive que deixar São Paulo porque minhas crises de pânico tomaram proporções gigantes e preocupantes. Eu estava ficando agorofóbica e com medo de pessoas. A música não conseguiu segurar a falta da minha família e os meus sintomas. Foram os dias mais difíceis da minha vida. Decidir entre o que eu amava profissionalmente e o que eu era: uma menina com muitas ambições, porém, extremamente apaixonada pela sua família.
Com a esperança de voltar a estudar e praticar música onde quer que eu estivesse, voltei para Aracaju.
Agora vem a parte que dói: minha cidade me recebeu bem, como sempre fez, e ainda me deu oportunidades. “Vai lá, você pode tocar, vai em frente e arrasa!”
Subi nos palcos pela primeira vez em novembro de 2014 e, em alguns momentos que venho pisando desde então, senti algo do tipo: é isso.
Mas, cara, vou te dizer uma coisa: é tudo uma farsa. Não existe música. Existe farra. Não existe profissionalismo. Existe amadorismo. Não existe camaradagem. Existe oportunismo. Não existe talento. Existe onda. Não existe festa. Existe oportunidade de fazer grana. Não existe artista. Existe status.
Dói, mas é verdade.
Salvo aqui as poucas e maravilhosas exceções que não vão precisar que eu as cite. Elas sabem quem são. Assim como os maus exemplos. Não vou precisar citar nomes. A carapuça vai cair.
E isso não é só na minha cidade. É no Brasil todo. E no mundo artístico em geral. Produtor não entende o lado do músico, empresário não é artista e público não é especialista. Vai tudo para debaixo dos panos.
Depois de todas as minhas experiências, dores de cabeça, investimento financeiro, etc , etc, sou obrigada a ser encarada como “mercenária” ou “o trabalho dela não vale tanto”.
Isso porque, um ou dois, super talentosos também, me fazem o favor de cobrar uma mixaria para passar a noite em pé, mixando ao vivo, música por música, muitas vezes à base de água e nada mais, trabalhando, enquanto os outros se divertem (porque, acredite, o DJ tá curtindo ali, mas ele tá tenso porque uma cagadinha que ele dê é tranquilo pra você e o fim do mundo pra ele). E enquanto o famigerado fica ali, suando bicas na tensão, tem um produtor ganhando 20×200 no mínimo, mais um lucro absurdo de bar por uma noite que, acredite, sem aquele DJ, não seria NADA.
Volto a lembrar que o mesmo ocorre com os músicos. Até pior inclusive, porque acho que a habilidade de tocar um instrumento é absurdamente valiosa e cansativa. Volto a lembrar também que estou falando de regras e não de exceções.
Todo esse texto é para se resumir num apelo, especialmente aos músicos e públicos por aí:
– Não se vendam por qualquer coisa. O público é maravilhoso quando pula, mas quando a festa acaba é você, suas contas e a pressão que sofre por ter escolhido essa profissão. Ninguém vai estar com você depois. A fama é solitária, já disse uma cantora muito famosa. Triste, mas verdade;
– Não existe o termo “visibilidade”. Quer ser visível? Pega uma praça em dia de movimento e toca seu som de graça por lá. Você vai ter visibilidade. Tocar num palco onde ALGUÉM está ganhando ALGUMA COISA e você não porque está lá pela “visibilidade” é cilada;
– Água é obrigação. Cachê é obrigação. Consumação é obrigação. Negocie esses termos para não ficar injusto para ninguém, mas não abra mão deles;
– Dê toda a atenção do mundo para seu público. Eles são o que fazem seu show. Público, por sua vez: valorize seus artistas. Eles fizeram muito mais esforço do que lhe parece. Aquilo é um trabalho. Reconheça e pode cobrar.
– A todos que eu possa ter despertado algum tipo de ressentimento, mil desculpas, não foi minha intenção. Só não vou deixar meu sonho e o sonho de tantos outros que estão começando agora ir pro lixo. Ou por 50 reais.

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