Lendo um livro na praia | crédito: Simon Cocks/Flickr

Eu amo ler

Eu amo ler.

Eu amo tanto ler que tenho dificuldade de conversar com quem não gosta. Do mesmo jeito que torcedores fanáticos de futebol evitam o assunto na mesa do jantar, ou que os catalães e os madrilenhos preferem não falar de política à mesa, eu prefiro mudar de assunto quando descubro que o outro não gosta de ler.

Não exijo muito; não é que eu seja uma leitora de clássicos e não me considero nem intelectual e nem pseudo. Eu gosto de livros de assassinos seriais, livros de suspenses e mistérios, livros de advogados que processam grandes corporações corruptas e livros de vampiros. Adoro um vampiro. Bruxa também. Mas não essa bruxas espirituais, gosto de bruxa má mesmo. Também gosto de livros meio surreais, categoria Murakami e curto uma biografia bem escrita. Eu li Jane Austen e Hemingway e li e reli Jorge Amado, adoro Zelia Gattai – ainda que digam que ela escreve errado – e Mario Prata. Esse, eu conheci. Tomei um vinho com ele. Nunca me senti tão burra na vida.

Estava eu em um bar, onde fui para uma reunião de trabalho com o acima citado. Era um projeto para uma marca de cervejas e ele chegou e pediu um vinho. A cliente, uma pessoa excelente, nem titubeou. Se é vinho que ele quer, é vinho que ele vai ter. Ela estava tão em alfa quanto eu. Ali, no bar, entre nós, estava Mario Prata. Meu Nick Hornby brasileiro. Paulo Coelho havia acabado de ganhar seu assento na Academia Brasileira de Letras e eu, como tantos outros incultos por aí, estava em choque. Achei que se dividisse esse meu horror com Mario Prata, tão intelectual com seu vinho tinto e seu cigarro às quatro da tarde, eu ganharia pontos.

Você é uma ignorante. Só pode ser isso. Claro, talvez ele tenha sido mais gentil do que isso, mas essa é a minha lembrança do acontecido e será pra sempre. Se não bastasse ele ter escrito várias das letras do Raul Seixas, ele é responsável, diretamente, pelo crescimento do mercado literário Brasileiro. Antes do Paulo Coelho, a média anual de livros por Brasileiro era um. Depois dele, dois.

Eu não sei se ele está certo em suas estatísticas. Sei que Paulo Coelho é conhecido no mundo todo. Mais conhecido que a Dilma. Mais conhecido que o Lula. Até aí, ótimo. Se ele for mais conhecido que o Pelé, eu vou ficar tensa. Bom. O fato é que tive que engolir meu discurso e aceitar que a ABL estaria correta em sua decisão. O fato é que o Paulo Coelho fez o Brasileiro ler mais.

Eu li todos os Harry Potter. Era daquelas que encomendava na pré-venda da Amazon e esperava ansiosamente o livro chegar. Quando saiu o último livro, eu namorava o Rafa. A gente fez uma viagem pelo Brasil – Rafa é Espanhol. Eu tinha acabado de receber o sétimo livro e sabia que alguém morria e que ali a história acabava. Enquanto viajávamos por Fernando de Noronha e pelo sul da Bahia, todo e qualquer momento livre eu abria o livro e devorava os acontecimentos. O Rafa não entendia. Verdade é que ficou meio puto. Mas eu sabia que aquele mundo daqueles personagens que eu tinha aprendido a entender estava para chegar ao fim e eu precisava acompanhá-los, como alguém que se despede de um amigo que vai pra guerra.

Pensando bem, tá quase na hora de reler os Harry Potter. Eu sou desse tipo. Tem alguns livros que eu leio de novo. Brumas de Avalon. Meu Pé de Laranja Lima. Memórias Póstumas. Middlesex. Them. The Orientalist. A Hora das Bruxas. Tipo de livro que se lê de novo. Que nem assistir Poderoso Chefão. Eu vejo uma vez por ano.

Guardei minha opinião sobre o Paulo Coelho pra mim. Não, eu não gosto. Sim, eu acho péssimo. Sim, se você disser que gosta eu vou achar tão ruim quanto se você disser que “gosta de ler Sabrina”. Porque eu gosto de ler. Eu prefiro que não “leiam pra mim”.

Blog é bem old fashion. Tem rede de boomer, rede de millennial, rede de Z. Haja rede pra tanta conversa.