o dia que Um iPhone quebrado me levou a um show de Liniker

Não integro o grupo radical de pessoas que abomina o estilo de vida moderno e vive a base de óleo de coco – pelo menos por enquanto. Mas me afastar da tecnologia sempre rende uns momentos maravilhosos.

Começou no carnaval de rua. De uns três anos pra cá, São Paulo virou um caos – vide ‘casa comigo, largo da batata 2017 google imagens’. Paradoxalmente, um caos positivo, colorido e pra lá de alegre. Eu, que nunca me dispus a passar horas pra descer ou subir a serra, acho o máximo. Ainda mais porque as ruas ganham vida e, mesmo que por apenas cinco dias, as pessoas entendem que esse espaço é delas.

Marquei de pular com um grupo de amigos, botei uma cartola na cabeça e parti. Meu celular simplesmente morreu antes que eu chegasse no ponto de encontro definido. “Vou encontrá-los,” pensei por dois segundos. Mar de gente. Ri. Virei o leme, decidi partir pro centro da cidade e me jogar em algum bloco do jeito que vim ao mundo: sozinho (pelado não ia rolar porque seria desacato rs). Sem ironia alguma, terminei o melhor dia do meu feriado tirando uma selfie ao lado de pessoas desconhecidas, deitado no asfalto quente, enquanto um morador de rua me abraçava e uma pessoa de origem desconhecida regava o grupo a cerveja quente.

A cena parece trágica, mas, carrega certo aspecto libertador. Nos dias que se seguiram, gastei pelo menos 6 horas da minha vida esperando amigos atrasados com notificações de “em cinco tô aí” a cada 30 minutos no WhatsApp. Quem tem FOMO sabe a tortura que é. A vontade de fingir demência e me jogar sozinho mais uma vez foi grande, confesso.

Corta a cena. Meses se passam e, de novo, me pego na situação. Em um dos feriados recentes (Deusa abençoe 2017 e sua chuva de emendas), organizamos no grupo de amigos uma ida ao Ibirapuera. O objetivo: promover uma gaymada (a.k.a. a queimada das bicha). Algo – pra não dizer eu mesmo – fez com que eu me atrasasse tempo o suficiente pra que eles descessem na minha frente até o parque. Uma hora depois, chego. E meu recém-adquirido smartphone desliga.

“Estamos no portão 10”, era minha última referência. Aparentemente, toda a população da cidade resolveu usar o portão 10 como ponto de encontro. Me peguei circulando sozinho pelo parque, na certeza de que nunca, no Brasil, na Terra, haveria de encontrá-los. Profundamente entristecido por perder o jogo – amo/sou uma partida de queimada -, resolvi dar uma caminhada pelo parque, porque perder a viagem, jamais.

Passando pelo auditório, notei uma movimentação estranha. Um puta palco e três dúzias de gente diferentona esperando na grama. Um ser humano normal teria notado desde o início a placa gigantesca que anunciava em letras garrafais LINIKER E OS CARAMELOWS ÀS 16h, já eu, demorei cinco minutos. Pelas contas mentais, lembrando as horas que meu celular indicava antes de dar seu último suspiro, tava pra começar.

Ouvi a introdução de Remonta e, quando vi, já dançava junto com uma multidão de gente maravilhosa e desconhecida que, assim como eu, só quer ser feliz. Choramos juntos cantando Sem Nome, mas Com Endereço. Gastamos a garganta no maior karaokê a céu aberto ao som de BoxOkê. E urramos quando, no fim, a banda dedicou o show às minorias ali presentes.

E pensar que eu poderia ter passado a tarde deslizando pra esquerda no Tinder…

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