Não precisa trazer presentes

Eu sei que ainda não chegou a hora. Sei que este ano continuarei curtindo a minha própria companhia, um bom vinho tinto, uma boa comédia romântica no sofá da sala. Tudo bem, não soaria tão deprimente se o dia dos namorados não caísse num domingo. Você sabe como é, domingo já não tem boa fama. De qualquer maneira, como diz minha sábia avó, antes só do que mal acompanhado.

Acho que cheguei em um nível de maturidade presunçoso. Cansei de esperar por algo que só existe dentro da minha cabeça. Chega uma hora em que a gente para de querer encontrar a outra metade que acreditamos existir. Percebe, enfim, que não há outra metade coisíssima nenhuma.

Então, acho que já está na hora de abrir o meu coração para você, amor, seja lá quem você for.

Não tenha medo, já estou desarmado. Por mais difícil que seja, já desmistifiquei a tela bonitinha que por anos insisti em te pintar. Eu sei, você é livre, eu sou livre, nós somos livres. Para amar tem que ser livre; tem que aprender a hora de planar sem interromper o voo do outro. Acho que foi quando aprendi a ser feliz sozinho que comecei a não esperar tanto de você. Venha, venha que já descobri o plano certo para fazer o relacionamento dar certo. É liberdade.

Quero entrar de cabeça nisso, mas só se você souber – e aceitar – que o acordo é bilateral. Não somos um só; somos dois que se juntam para viver uma história que terá carícias, crises, choros e carinho, muito carinho. Teremos bons momentos, assistiremos filmes românticos e choraremos nos ombros um do outro. O mais importante: saberemos que o outro é alguém que a gente ama, mas não tem. Ninguém pode ter ninguém. Ter é um verbo egoísta e não há maneira de tratar o amor com egoísmo.

Você, amor, terá de saber que tenho coisas mal resolvidas, feridas não cicatrizadas, frustrações e sonhos não alcançados. Terá de me aceitar do jeito que eu sou: cheio de fragilidades. A parte boa é que você não poderá esperar tanto de mim. A ruim é que, cedo ou tarde, isso causará um milhão de problemas entre a gente. Mas, lembre-se, se tivermos em mente a fórmula, ou melhor, a liberdade, faremos dar certo.

Aprendi que amar é acolher a dor do outro. Amar é cuidar, vigiar e proteger sem sufocar. Amar é um constante aprendizado sem fórmulas, então esquece. Se você vier, juro que farei todo o esforço do mundo para te manter respirando em nosso relacionamento. Amar é se relacionar com os braços abertos.

Tenho muito a aprender e espero que tenhamos maturidade para aprendermos um com o outro. Não quero que você me esconda que está com saudades por medo de parecer carente, nem quero que façamos joguinhos sentimentais. Quero, sobretudo, que seja honesto. E ah, não quero acreditar, nem por um segundo, que as nossas felicidades dependem uma da outra. Só venha se você já souber ser feliz sozinho. Duas felicidades libertárias juntas e unidas: amor.

Quero você de mãos dadas, amor. Quero ficar ansioso te esperando. Quero que você me faça carinho do lado direito do rosto, que me olhe no fundo do olho, que me segure quando eu estiver fraco das pernas. Quero te ter aqui do ladinho, para quando a noite cair eu ter o lugar certo onde deitar. Te quero com seus medos, com seus anseios e imperfeições. Quero que você divida tudo que tiver de dividir comigo. Mas também quero que me ensine a manter distância quando você precisar ficar um pouco sozinho.

Se quero muito, perdão. Se quero pouco, desculpe. Se te quero e já chegou a hora, não receie em chegar, tocar a campainha e fazer alarde. Estarei encolhido no sofá, com o vinho e o filme rodando.

Não esqueça, domingo!

Não precisa trazer presentes, só se faça presente. Isso deve bastar.

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