DESCOBRI QUE QI DIMINUI, UM DESEspERO

O olhar perdido ronda pela sala e pelos colegas que escrevem freneticamente enquanto a folha em branco me encara. “Acho que emburreci”. Respiro três vezes, paro e fito o enunciado, enigmático.

Leio. Releio. Vácuo. A informação debocha da minha expressão confusa. Será excesso de coisa na cabeça? Ou o efeito retardatário do rapé de sexta? Ou o soco que levei antes de ser roubado na semana passada?

Não sei, mas a frustração aumenta. “ANALFABETO FUNCIONAL”, sussurro internamente. Murakami, respiração celular, guerra dos canudos, espiral do silêncio, Enterrem meu Coração na Curva do Rio, teorema de Bernouli… As referências se misturam, grudam aos pares e dançam uma valsa mental que me causa náuseas.

Foco no enunciado. Foco no tempo restante. Ouço o bater da porta. O primeiro colega sai. No impulso, assino a prova e o sigo. As únicas linhas preenchidas são as do cabeçalho. Chego ao corredor, uso o chão como assento e ligo a tela do celular. Três novas notificações, uma mensagem, Tinder apita, trinta minutos se passam. “Será que estou emburrecendo?”, reflito já em casa, deitado na cama.

A pergunta persiste quando olho o cursor que pisca e o prazo que grita, no dia seguinte, no trabalho. Declaro falência criativa às 11h e gasto as sete horas seguintes buscando, em desespero, me agarrar a referências visuais e verbais que provoquem um Big Bang cerebral e despertem algo. Qualquer coisa na minha cabeça.

O artigo que diz que QI diminui não ajuda. Penso em todas as temporadas de Keeping Up With The Kardashians que já assisti. Mas “é possível regenerar os neurônios”. E foi o El País quem disse. Às 19h, escrevo essas palavras encarando frestas tímidas de um sol que se põe entre uma infinidade de arranha-céus.

Será que foi o rapé?

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