Reprodução: Psicose

Serial Killer, corre aqui

O que era para ser uma simples massagem…

Depois de mudar para Londres, resisti por meses sem fazer massagem – mesmo minha dor no pescoço tendo piorado devido aos travesseiros baratos que comprei na Ikea. Encontrei no Google uma ótima oferta, e decidi arriscar.

– Amor, estou indo fazer uma massagem. Encontrei um cara que parece bom!
– Você vai fazer massagem com um homem?
– É, amor. Um homem.
– Vai numa mulher!
– Foi a melhor opção que encontrei. Quer vir comigo?
– Não posso, estou meio ocupado.
– Por favor! E se ele for um psicopata e não me devolver nunca mais? – disse começando a achar essa ideia de ir num cara que eu nunca vi na vida um pouco perigosa.
– Não fala besteira. Me liga quando sair de lá.

Minha chantagem emocional não surtiu efeito.

Eram seis da tarde, e fui rezando para o massagista não ser mesmo um psicopata comedor de meninas estrangeiras. Cheguei numa rua linda em Notting Hill, cheia de casinhas coloridas. Até que eu moraria aqui – fiquei divagando enquanto tocava a campainha.

– Boa tarde. – disse um homem com aproximadamente 50 anos, que poderia facilmente ser um serial killer dos mais experientes. – Estou atendendo e volto já. Não tenho uma recepção, então senta na escada mesmo.

Tudo era estranho. A casa parecia não ser habitada. Tudo era vazio e sem móveis. Sem nem uma mísera florzinha. Num degrau, tinham uns papéis e um livro sobre anatomia humana.

Estava cada vez mais desconfiada quando escutei a voz de uma mulher vindo da sala. Senti um imenso conforto. Se ela ainda não tinha morrido, talvez eu também não morresse. Ou morreríamos juntas, o que seria melhor que morrer sozinha.

Através de um vidro, vi que, entre roupas jogadas num sofá, tinha um sutiã. Meu Deus, ela está completamente pelada na casa do maníaco!

Finalmente, o massagista saiu e disse que iria lavar as mãos, desaparecendo num corredor secreto. Bom sinal, ele lava as mãos – ou mau sinal, foi limpar o sangue.

A mulher saiu parecendo tranquila e relaxada. Me fez um mini cumprimento como quem diz que vai ficar tudo bem.

Eram seis e meia. Entrei numa sala grande e organizada, bem com cara de sala de psicopata. Não tinha quase nada, e o que tinha era branco. Exceto pela maca preta – talvez para disfarçar marcas de sangue. Percebi que estava completamente pirada, e devo estar assistindo a Dexter demais.

Expliquei sobre minha dor. Falei que ele deveria se concentrar no pescoço e ombros pensando em evitar uma nudez completa e aumentar minhas chances de sobreviver.

Ele pediu para eu me acomodar e saiu. Me cobri com a toalha dando uma boa olhada ao redor para descobrir uma possível rota de fuga. Tocava uma música deliciosa. Meio calma, meio melancólica. Quando ele voltou, perguntou se estava deprimida demais. Mau sinal.

Deprimido e sem amigos.  Psicopata. Confesso que está exatamente como gosto, pensando que talvez eu e o psicopata não sejamos tão diferentes assim.

Depois de uma longa sessão de alongamento, ele finalmente começou a massagem. Fiquei aliviada ao perceber que ele era muito bom. Deitada numa maca quentinha, com a música meio calma e meio melancólica de fundo e recebendo uma massagem incrível, me ocorreu que, se ele me mantivesse prisioneira, a vida de refém talvez não fosse tão ruim. Eu receberia massagens, ouviríamos músicas bebendo vinho e, se eu prometesse não fugir, ele me deixaria passear pela rua de casinhas coloridas. Eu poderia até para escrever uma série baseada em nós.

Percebi que ele demorava, mas resisti em olhar o relógio desejando que não acabasse. Oscilava entre me sentir com sorte e me sentir ferrada, pensando se aquilo tudo não passava de um ritual.

Ainda sem pressa, ele me ensinou alguns alongamentos para eu fazer em casa. Falando assim nem parecia que ele iria me matar. Disse que, se eu voltasse, faria massagem por mais tempo. Massagem por três horas – comecei a delirar. Talvez fosse uma forma de seduzir a vítima.

Saí de lá enfiando a mão na bolsa para pegar o celular que vibrava desesperadamente.

– Onde é que você estava??? –, uma voz claramente brava.
– Acabei de sair da massagem, amor!
– Não disfarça, são quase nove horas da noite! Por que você demorou tanto? –, ele disse, completamente desconfiado.
– Ele simplesmente fez massagem até agora. Fizemos também alongamentos, talvez foi isso. E ele focou só no meu pescoço e ombros!
– Duas horas para massagear seu pescoço? –, era melhor ter dito que fiquei pelada.
– E então por que você não me atendeu?
– Não dá para atender no meio da massagem! Está tudo bem, daqui a pouco estarei em casa.

Quando cheguei, ele não olhou para mim até que eu encostasse nele.

– Você não vai mais voltar nesse lugar.
– Coitado, claro que vou! Você acha que, se eu fosse encontrar um amante Londrino, eu teria te convidado para ir junto?
– Não sei. Mas você não volta.

Silêncio.

– Seja sincero. Quanto você estava preocupado e quanto estava com ciúmes?
– Cinquenta, cinquenta –, ele disse sem disfarçar.
– Em vez de reclamar, da próxima vez vem comigo.
– Não vai ter próxima vez.

Dei risada e saí andando, deixando ele com suas fantasias porque eu já tinha meus próprios delírios para lidar.

Fiquei pensando se o massagista poderia mesmo ser um serial killer. Só vou descobrir voltando.

Caso ele seja um psicopata, vou torcer para ao menos ele me matar só depois da massagem.

Tomara que ele não esqueça de esquentar a maca. E que a trilha sonora esteja à altura.

Ao me pegar fazendo uma lista de últimos desejos, percebi que o coitado do massagista devia ser o único normal entre nós.

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